“O MODELO DOS MODELOS” de Ítalo
Calvino e as relações com o AEE
“Houve na
vida do senhor Palamar uma época em que a regra era esta: primeiro construir um
modelo na mente, o mais perfeito, lógico, geométrico possível; segundo
verificar se tal modelo se adapta aos casos práticos observáveis na experiência;
terceiro; proceder às correções necessárias para que modelo e realidade
coincidam”.
Comparando esse trecho
com o AEE, não podemos e não usamos regras para atender nossos alunos. “Construir um modelo”, isso não existe, trabalhamos com seres humanos e ninguém é
igual a ninguém. Cada um tem um pensamento diferente. Nosso trabalho não é de
corrigir e sim de ajudar a cada um em suas dificuldades, habilidades e
potencialidades de acordo com suas necessidades.
“A regra do senhor Palomar foi aos poucos se modificando:
agora já desejava uma grande variedade de modelos, se possível transformáveis
uns nos outros segundo um procedimento combinatório, para encontrar aquele que
se adaptasse melhor a uma realidade que por sua vez fosse feita de tantas
realidades distintas no tempo e no espaço”.
Este parágrafo podemos
comparar com a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da
Educação Inclusiva. Esta política propõe esse novo olhar para a Educação
Especial que propõe e obriga as escolas receberem todos os alunos com ou sem
deficiência. Este documento reconhece que é possível transformar, só precisa
buscar com paciência os elementos combinatórios para as diversas realidades.
Para o
personagem do texto, o senhor Palomar, é preciso desconstruir para construir.
Não existem modelos ideais. Modelos são modelos, precisam ser modificados,
transformados. Em determinado momento ele defende que quanto mais modelos, mais
possibilidades se têm para “obter modelos transparentes, diáfanos, sutis, como
teias de aranha; Talvez até mesmo para dissolver os modelos, ou até mesmo para
dissolver-se a si próprio”.
RECURSOS E ESTRATÉGIAS EM BAIXA TECNOLOGIA PARA
ALUNOS COM TGD/TEA
Considerando a Tecnologia Assistiva, podemos
citar como exemplos de recursos de Baixa Tecnologia destinada aos alunos que
apresentam TGD/TEA: pranchas de comunicação,
mesa, prancha de olhar, avental, cartões, cadernos de comunicação, porta
documentos/cartões, álbum de fotografias, etc. Entre os quais, podemos
conceituar e apresentarmos dois exemplos de recursos:
Pranchas de comunicação - As pranchas de comunicação podem ser
construídas utilizando-se objetos ou símbolos, letras, sílabas, palavras,
frases ou números. As pranchas são personalizadas e devem considerar as
possibilidades cognitivas, visuais e motoras de seu usuário. Essas pranchas
podem estar soltas ou agrupadas em álbuns ou cadernos. O indivíduo vai olhar,
apontar ou ter a informação apontada pelo parceiro de comunicação dependendo de
sua condição motora.
Avental
- é um avental confeccionado em tecido que facilita a fixação de símbolos
ou letras com velcro, que é utilizado pelo parceiro. No seu avental o parceiro
de comunicação prende as letras ou as palavras e a criança responde através do
olhar.
Os Símbolos
de Comunicação Pictórica (PCS) formam um sistema de comunicação completo
com mais de 11.000 símbolos e foram originalmente desenhados para
criar, rápida e economicamente, recursos de comunicação consistentes e com
acabamento profissional. São utilizados extensivamente em inúmeros tipos de atividades
de aprendizado e pesquisas científicas. Os símbolos PCS apresentam grande
transparência e inteligibilidade e foram criados no início dos anos 80 pela
fonoaudióloga americana Roxanna Mayer Johnson, compondo atualmente o conjunto
de símbolos mais difundido em todo o mundo.
Estes
símbolos podem ser utilizados como Estratégias Pedagógicas:
As pranchas de comunicação e os aventais podem ser
utilizados como estratégias pedagógicas, destinadas ao público de alunos que apresentam TGD/TEA, na faixa
etária de 02 a 16 anos de idade. Podem
ser utilizados e explorados considerando os vários ambientes em que a criança
esteja inserida. As figuras escolhidas para construir as pranchas de
comunicação e os aventais devem corresponder ao contexto de vida real da
criança para que possa surtir o efeito esperado e demandar funcionalidade ao
tema proposto.
Considerando o ambiente escolar, as pranchas de comunicação e os aventais
permitem intervenções aos professores que podem utilizar esses recursos para facilitar a aprendizagem
e o desenvolvimento do aluno através de contação de histórias, orientação de
Atividades de Vida Diárias-AVD’s, estabelecimento de regras de hábitos de
higiene e saúde, desenvolvimento do raciocínio lógico, conhecimento dos
animais, entre outras atividades. Estas atividades podem ser adotadas de forma
individual e coletiva por professores de AEE, sala de aula comum, Biblioteca, laboratório de informática, etc. pela capacidade de alcance e simplicidade que as
mesmas trazem.
Os recursos
tecnológicos sugeridos devem ser utilizados com o objetivo de promover mediação
entre o aluno e seus pares em um processo de interação com uso da comunicação e
linguagem para que os mesmos interajam com o objeto.
Ressalta-se que as pranchas de comunicação podem ultrapassar
o ambiente escolar, pois o foco das
atividades consiste na ampliação das formas de comunicação, no comportamento e
na interação social da criança. Assim,
estendendo-se ao ambiente do contexto de vida familiar e social da criança a
exemplo de fotos e figuras de objetos pessoais da criança e dos demais
familiares com o objetivo de estabelecer a comunicação e linguagem para a vida
prática, autonomia e independência da mesma, bem como auxiliar no seu processo
de desenvolvimento cognitivo e emocional.
DIFERENÇA ENTRE SURDOCEGUEIRA E
DEFICIÊNCIA MÚLTIPLA
A surdocegueira é uma deficiência
única em que o indivíduo apresenta ao mesmo tempo perda da visão e da audição.
É considerado surdocego a pessoa que apresenta estas duas limitações,
independente do grau das perdas auditiva e visual. A surdocegueira pode ser
congênita ou adquirida e não é deficiência múltipla. Segundo o fascículo
(AEE-DM), as pessoas surdocegas estão divididas em quatro categorias: pessoas
que eram cegas e se tornaram surdas; que eram surdos e se tornaram cegos;
pessoas que se tornaram surdocegos; pessoas que nasceram surdocegos, ou se
tornaram surdocegos antes de terem aprendido alguma linguagem.
Deficiência múltipla é quando uma pessoa
apresenta mais de uma deficiência, “é uma condição heterogênea que identifica
diferentes grupos de pessoas, revelando associações diversas que afetam, mais
ou menos intensamente, o funcionamento individual e o relacionamento social”
(fascículo DMU). As pessoas com deficiência múltipla apresentam características
específicas, individuais, singulares e não apresentam necessariamente os mesmos
tipos de deficiência, podem apresentar cegueira e deficiência intelectual;
deficiência auditiva e deficiência intelectual; deficiência auditiva e autismo
e outros.
Múltipla
deficiência sensorialé a deficiência auditiva ou a deficiência visual associada a
outras deficiências (mental e/ou física), como também a distúrbios
(neurológico, emocional, linguagem e desenvolvimento global) que causam atraso
no desenvolvimento educacional, vocacional, social e emocional, dificultando a
sua auto-suficiência.
Crianças que apresentam graves
comprometimentos múltiplos e condições médicas frágeis:
1.
apresentam mais dificuldades no entendimento das rotinas diárias, gestos ou
outras
habilidades
de comunicação;
2.
demonstram dificuldades acentuadas no reconhecimento das pessoas significativas
no
seu ambiente;
3.
realizam movimentos corporais sem propósito;
4.
apresentam resposta mínima a barulho, movimento, toque, odores e/ou outros
estímulos.
Muitas
dessas crianças têm dificuldade na obtenção e manutenção do estado de alerta.
Isso
é crítico porque a prontidão é o estado comportamental em que as crianças estão
mais
receptivas
à estimulação, aprendem melhor e são capazes de responder de uma maneira
socialmente
aceita. Crianças com múltipla deficiência sensorial têm uma variedade de
necessidades
especiais que se assemelham às necessidades da criança surdocega. Nesse
sentido,
toda a abordagem descrita neste documento aplica-se também à criança com
múltipla
deficiência
sensorial.
As
crianças surdocegas apresentam, freqüentemente, comportamentos como:
1) dificuldades em elaborar a
consciência da relação dos segmentos corporais em si e
destes
com objetos (fase comum a todas as crianças); 2) limitações para o movimento e
funcionamento
do próprio corpo; 3) insegurança
pessoal; e, 4) atraso no
desenvolvimento
motor
e afetivo, pode ser atribuído à qualidade e quantidade das interações mantidas
com o
ambiente.
Afinal, enquanto as crianças normais usam a audição e a visão para direcionar
sua
ação,
e com isso aprendem, por exemplo, que seu comportamento e movimento têm
conseqüências
determinadas e que objetos e crianças que não podem ser vistos continuam
a
existir, a criança surdocega não possui condições para responder e compreender
as
demandas
do meio, precisando, por isso, que esses aspectos lhes sejam ensinados.
O
papel do professor, intérprete ou guia-intérprete junto à criança surdocega será
o de
suprir
sua carência de funcionamento sensorial com estímulos organizados e
significativos,
promovendo
a construção de sua consciência e imagem corporal, seu desenvolvimento motor
e
afetivo, e também sua autonomia (Erikson, 2002).
As crianças surdocegas podem apresentar
perfis distintos, em função de vários aspectos:
1.
características da interação que mantém com o meio, decorrentes do
comprometimento
dos sentidos de distância (audição e visão) e da disponibilidade
do
meio para interagir com elas utilizando formas adaptadas às suas necessidades;
2.
grau de perda auditiva;
3.
grau de perda visual;
4.
outros comprometimentos associados, entre eles o motor e o neurológico;
5.
período de aquisição da surdocegueira.
O
processo de aprendizagem da via de comunicação exige atendimento especializado,
com
estimulação específica e individualizada. Quando a criança é estimulada
precocemente,
ela
adquire comportamentos sociais mais adequados e, também, poderá desenvolver e
aprender
a usar seus sentidos remanescentes melhor do que aquela que não recebeu
atendimento.
Recursos
específicos para a pessoa com surdocegueira
Línguas
de sinais e intérprete:é o
meio de comunicação mais comum utilizado, se a pessoa nasceu surda a primeira
língua aprendida é a dos sinais (LIBRAS). Com o campo da visão reduzido o
surdocego interpreta os sinais por meio dos movimentos do interprete que por
sua vez, faz também um segundo papel: o de guia ou o chamado guia-intéprete, o
qual necessita conhecer várias formas de comunicação.
É
imprescindível para uma melhor locomoção, que o surdocego passe pelos
treinamentos dos Programas de Orientação e Mobilidade (O.M). Treinamentos pelos
quais passam pessoas com cegueira congênita ou adquirida, tendo como principal
característica o uso da bengala.
Braille:é um recurso utilizado pelas pessoas
com cegueira para desenvolver a escrita e a leitura pelo tato. Para tanto são
usados recursos materiais como: reglete, punção, máquinas braille e
soroban.
Alfabeto
Dacticológico:é o
uso do alfabeto manual, em alguns casos, já utilizados pelos surdos. O
interlocutor faz a letra na palma da mão da pessoa surdocega. Cada letra
corresponde a uma posição dos dedos.
Tablitas
de comunicação:é
um meio de comunicação feito de plástico resistente com letras em relevo,
números ordinários e caracteres em braille. A pessoa com surdocegueira, coloca
o dedo indicador nas letras estabelecendo a comunicação.
Diálogo
(fala escrita):consiste
na utilização de uma máquina braille, máquina de escrever eletrônica, um
gravador e uma linha telefônica. O surdocego escreve na máquina e o texto é
impresso, assim, o vidente lê e utiliza a mesma forma para escrever e assim
está estabelecida a comunicação.
CCTV:é um ampliador de imagens que visa auxiliar a pessoa que tem um
resíduo visual muito pobre a ler e escrever, o CCTV amplia em até sessenta
vezes o tamanho da figura.
Tellethouch– Este aparelho tem teclado de uma máquina braille e um teclado
normal. O teclado braille assim como o teclado normal levantam na parte de trás
do aparelho uma pequena chapa de metal, a cela braille, uma letra de cada vez.
É um dos principais meios de interação do surdocego com outras pessoas. Ao
interlocutor do surdocego basta saber ler. Sabendo ler precionará as teclas
normais da tellethouch como se estivesse redigindo um texto escrito qualquer.
Letras
de forma: Esta é a forma mais simples de comunicação para a pessoa com
surdocegeuira. Neste caso, é preciso que o interlocutor saiba as letras
maiúsculas do alfabeto. O dedo indicador funciona como uma caneta e o
interlocutor escreve na palma da mão do surdocego.
Tadoma:Consiste na vibração da fala do interlocutor.
A pessoa surdocega, coloca as mãos na face do interlocutor próxima à boca e
sente a vibração da fala. É preciso muito treino e prática da pessoa surdocega
para estabelecer comunicação utilizando este método.
Fonte:
BRASIL. Ministério da Educação e da Cultura. Saberes e Práticas da Inclusão.
Dificuldades de comunicação e sinalização: Surdocegueira / múltipla deficiência
sensorial Secretaria de Educação Especial – Brasília: MEC/SEESP – 2006.
A
educação escolar das pessoas com surdez já existe aproximadamente a dois
séculos, quando surgiu um embate político e epistemológico entre os
gestualistas e os oralistas. Este conflito tem ocupado um lugar de destaque nas
políticas públicas, nos debates e nas pesquisas científicas, assim como nas
ações pedagógicas empreendidas em prol da educação das pessoas com surdez, seja
na escola comum ou na escola especial.
A discussão sobre surdez, educação e
língua de sinais vem sendo ampliada nos últimos anos por profissionais
envolvidos com a educação de surdos, como também pela própria comunidade surda.
Segundo Moura (2000), a educação e inserção social dos surdos constituem um
sério problema, e muitos caminhos têm sido seguidos na busca de uma solução.
A
oficialização da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) em abril de 2002 (Lei n.
10.436, de 24 de abril de 2002) começa a abrir novos caminhos, sem, no entanto,
deixar de gerar polêmicas por profissionais que trabalham com surdos e por
surdos oralizados, que não se sentem parte de uma comunidade surda e não vêem
mérito nessa vitória para a comunidade surda.
A
língua de sinais, língua natural dos surdos, pois essa a criança surda adquire
de forma espontânea sem que seja preciso um treinamento específico, ainda é
considerada por muitos profissionais apenas como gestos simbólicos. De uma
maneira geral, em nossa sociedade não existe lugar para as diferenças, sendo os
surdos usuários da língua de sinais desconsiderados no processo educacional.
Muitos
profissionais que trabalham com surdos têm uma visão sobre a língua de sinais
como uma forma de comunicação, não atribuindo a ela o status de língua e
considerando-a apenas uma alternativa para os surdos que não conseguiram
desenvolver a língua oral. Segundo Skliar (1997), o oralismo é considerado
pelos estudiosos uma imposição social de uma maioria lingüística sobre uma
minoria lingüística.
Como
conseqüência do predomínio dessa visão oralista sobre a língua de sinais e
sobre surdez, o surdo acaba não participando do processo de integração social.
Embora a premissa mais forte que sustenta o oralismo seja a integração do surdo
na comunidade ouvinte, ela não consegue ser alcançada na prática, pelo menos
pela grande maioria de surdos. Isso acaba refletindo, principalmente, no
desenvolvimento de sua linguagem, sendo então o surdo silenciado pelo ouvinte,
por muitas vezes não ser compreendido.
É preciso aceitar as
diferenças existentes entre os surdos com relação à modalidade de comunicação
utilizada, seja oral ou língua de sinais.
Língua
de sinais e linguagem
Antes
de iniciar esta discussão, torna-se essencial esclarecer os termos
"língua" e "linguagem". Saussure (1987) refere que a língua
não se confunde com a linguagem, pois ela é somente uma parte determinada,
essencial dela, indubitavelmente, sendo ao mesmo tempo, um produto social da
faculdade de linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo
corpo social para possibilitar o exercício dessa faculdade nos indivíduos.
A
linguagem por sua vez é tida como tudo que envolve significação, que tem valor
semiótico, não se restringindo apenas a uma forma de comunicação, e é nela que
o pensamento do indivíduo é constituído (Goldfeld, 1997). A autora refere,
ainda, que a linguagem está sempre presente no sujeito, até quando este não
está se comunicando com outras pessoas; assim ela constitui o sujeito, a forma
como este recorta e percebe o mundo e a si próprio.
Para
Vygotsky (1989), a trajetória principal do desenvolvimento psicológico da
criança é uma trajetória de progressiva individualização, ou seja, é um
processo que se origina nas relações sociais, interpessoais e se transforma em
individual, intrapessoal.
No
momento em que a criança adquire sua língua natural ela se torna capaz de
realizar o aprendizado de uma segunda língua, tornando-se um ser bilíngüe. No
caso dos surdos, como nem sempre isso é uma realidade, podemos encontrar surdos
adultos que, pela falta de acesso à língua de sinais na infância, chegam à vida
adulta sem ter adquirido nenhuma língua, por terem sido apenas expostos a uma
língua oral e não terem desempenho satisfatório com esta.
A
língua de sinais representa um papel expressivo na vida da pessoa surda,
conduzindo-a, por intermédio de uma língua estruturada, ao desenvolvimento
pleno. Harrison (2000) refere que essa língua fornece para a criança surda a
oportunidade de ter acesso à aquisição de linguagem e de conhecimento de mundo
e de si mesma.
Essa
língua, como qualquer outra, deve ser inserida na vida da criança nos três
primeiros anos de idade, para que a criança a adquira naturalmente. No entanto,
de acordo com a realidade de nosso país, a detecção da surdez nem sempre ocorre
até o primeiro ano de vida, assim como o acesso à língua de sinais é tardio.
Dificilmente a importância da Libras é apontada pelos profissionais que dão o diagnóstico
da surdez aos pais. É fundamental que os profissionais transmitam para a
família da criança surda as diferentes propostas de trabalho fonoaudiológico e
informem sobre a importância da LIBRAS para o seu processo educacional, social,
cultural, como também suas concepções e conseqüências para o desenvolvimento
geral do surdo. É essencial esclarecer e, como sugere Harrison (2000),
propiciar linguagem no tempo esperado, pois assim esta poderá trazer benefícios
para a criança e para a dinâmica familiar.
Pensando
no indivíduo surdo, acreditamos que seja importante para este como sujeito:
crescer, desenvolver-se, amadurecer, construir e constituir-se inserido numa
língua própria e natural. A criança, ao ter acesso a uma língua, passa a
desenvolver linguagem, interagindo com o outro, repensando suas ações,
elaborando seu pensamento, vivenciando novas experiências e se desenvolvendo.
Uma criança que não escuta possui as mesmas condições de aprendizagem que uma
criança ouvinte, porém o acesso à linguagem se dará por meio do canal
gesto-visual.
Ao
permitir que a criança surda tenha a oportunidade de se desenvolver de forma
análoga à das crianças ouvintes, estar-se-á respeitando sua língua, sua
diferença. Não se pode mais negar aos surdos o direito de serem parte
integrante e participativa de nossa sociedade. Além disso, para que o surdo
possa desenvolver-se, não basta apenas permitir que use sua língua, é preciso
também promover a integração com sua cultura, para que se identifique e possa
utilizar efetivamente a língua de sinais. A comunidade surda terá muita
importância para o desenvolvimento da identidade, pois nessa comunidade a
língua de sinais ocorre de forma espontânea e efetiva. Todo sujeito precisa
interagir em seu meio, apropriar-se de sua cultura e de sua história, e formar
sua identidade por intermédio do convívio com o outro.
Fonte:
DMÁZIO, M. F. M. ; ALVES, C. B. MEC: A Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva/2007
HARRISON, K.M.P. O momento
do diagnóstico de surdez e as possibilidades de encaminhamento. In: LACERDA,
C.B.F.; NAKAMURA, H.; LIMA, M.C. (Org.). Fonoaudiologia: surdez e
abordagem bilíngüe. São Paulo: Plexus, 2000. p. 114-122.
BRASIL. Lei n. 10.436, de 24 de abril de
2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS e dá outras
providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil,
Brasília, DF.
AUDIODESCRIÇÃO Olá! Este artigo é muito interessante. Espero que leiam e que gostem. São orientações valiosas para o nosso trabalho com as crianças.
COLUNA
Inclusão escolar
e audiodescrição
ORIENTAÇÕES AOS EDUCADORES
Quando falamos em inclusão escolar, em escola inclusiva, a escola que recebe, acolhe e oferece oportunidades de aprendizagem para todos os alunos, alguns questionamentos ainda teimam em vir à tona, por exemplo, as atividades escolares. Como preparar atividades escolares que contemplem as necessidades de todos os alunos? Como despertar a curiosidade, ampliar a visão de mundo, propiciar o acesso às informações a todos os alunos? Muitos são os recursos que poderão ser utilizados em sala de aula para responder a essas questões, dentre eles, a audiodescrição: um recurso de acessibilidade que amplia o entendimento das pessoas com deficiência visual em eventos culturais (peças de teatro, programas de TV, exposições, mostras, musicais, óperas, desfiles, espetáculos de dança), turísticos (passeios, visitas), esportivos (jogos, lutas, competições), acadêmicos (palestras, seminários, congressos, aulas, feiras de ciências, experimentos científicos, histórias) e outros, por meio de informação sonora. A audiodescrição transforma o visual em verbal, abrindo possibilidades maiores de acesso à cultura e à informação, contribuindo para a inclusão social, cultural e escolar. Além das pessoas com deficiência visual, esse recurso amplia também o entendimento de pessoas com deficiência intelectual, idosos e com dislexia. Para isso, são usados os mesmos
equipamentos de tradução simultânea, fones de ouvido e receptores. A informação sonora é transmitida pelos audiodescritores de dentro de uma cabine, com um roteiro previamente preparado, estudo sobre o tema e terminologia, inserida preferencialmente entre as falas dos personagens. Na televisão, a audiodescrição já era para ter sido implantada desde junho de 2008, com duas horas de programação audiodescritas por dia que seriam transmitidas pela tecla SAP (canal secundário de
Por: Lívia Maria Villela de Mello Motta*
Foto: Arthur Calasans
áudio). Entretanto, o recurso foi suspenso pelo Ministério das Comunicações, colocado em consultas públicas e novas portarias foram baixadas. Uma verdadeira saga, que culminou com a publicação da portaria 188 de março de 2010, que prevê a transmissão de duas horas semanais de programas audiodescritos a partir de julho de 2011, já na TV digital, diminuindo drasticamente as possibilidades de acesso à cultura e informação.
Na escola, o próprio professor pode descrever o universo imagético presente em sala de aula como ilustrações nos livros didáticos e livros de história, gráficos, mapas, vídeos, fotografias, experimentos científicos, desenhos, peças de teatro, passeios, feiras de ciências, visitas culturais, dentre outros, sem precisar de equipamentos para tal, mas ciente da importância de verbalizar aquilo que é visual, o que certamente irá contribuir para a aprendizagem de todos os alunos. Todos se beneficiam com o recurso, tanto aqueles que escutam como aqueles que fazem a audiodescrição, pois além do senso de observação, há uma ampliação do repertório e fluência verbais. O uso da audiodescrição na escola permite a equiparação de oportunidades, o acesso ao mundo das imagens e a eliminação de barreiras comunicacionais.
*Lívia Maria Villela de Mello Motta é doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC de São Paulo, e atua tanto na área de formação de professores para a escola inclusiva, como na área de inclusão cultural das pessoas com deficiência vi-sual, com foco na formação de audiodescritores para teatro, cinema, TV e outros espetáculos, eventos sociais e pedagógicos. E-mail: lívia@terra.com.br
AUDIODESCRIÇÃO
Este vídeo é muito interessante para todas as crianças. Assistam, vocês vão gostar muito.
O Girassolzinho (de Douglas Soares,
animação, RJ, 2012, 3min56s) está adaptado para criançascegas disponívelgratuitamente. O filme é mais um produto brasileiro do projeto
Filmes que Voam que tem o objetivo daacessibilidadeaosmeios audiovisuaisdedeficientes
visuais.
O curta-metragem traz a importância que
o sol tem em nossas vidas. O que seria daterrasem ocalorque dele recebemos ou a falta doefeitodos seusraios luminosos?Imagine para o girassol o que aconteceria se a
colocássemos em umaredomabem .fechadaeescura? Ficou curioso? Não vai perder essa linda história
infantil.
UMA TECNOLOGIA
ASSISTIVA A SERVIÇO DA INCLUSÃO SOCIAL
A despeito de muito já se ter produzido em termos
de literatura acerca da inclusão social e das várias práticas que a
representam, seja na escola ou em outros lócus, não é exaustivo se defender que
a inclusão se efetiva na prática, no fazer cotidiano, naocupaçãocom as mudanças sociais necessárias,
em lugar da merapreocupação, e na crença de
que cada pessoa em situação de aprendizagem, seja ela com deficiência ou não,
vem requerer de nós educadores um olhar sempre consciente e esvaziado, pronto a
preencher-se diante de novos desafios.
E quando a atenção recai sobre a
formação escolar de pessoas com deficiência, o ato de se perceber educador e,
portanto, responsável pelo planejamento das possibilidades de inclusão escolar
consiste em tarefa permanente, passando a demandar do docente uma atitude que
envolve flexibilidade e conhecimento, na busca pela promoção das
acessibilidades que conduzirão o educando com deficiência às reais
oportunidades de inserção no contexto da escola regular e, a partir dele, na vida
social, em prol do melhor desenvolvimento de suas potencialidades.
Nesse sentido, entendemos como possibilidades reais
de inclusão escolar aquelas em que se privilegiam atitudes pedagógicas e
relações interpessoais pautadas na ética entre educador e educando. Nas quais
se estabelece uma convivência harmoniosa ditada pelo respeito a todas as
pessoas, pelo simples fato de serem pessoas humanas.
Corroborando com essa visão, Almeida (2004, p.82)
defende que uma prática docente pautada pelo respeito ao educando pressupõe:
§ aceitá-lo no ponto em que está, o que significa
conhecê-lo em sua etapa de formação e conhecer os meios em que se desenvolve;
§ não impor limites a seu desenvolvimento;
§ oferecer outros meios e grupos para que ele possa
desenvolver suas ações;
§ aceitar que a educação é uma relação evolutiva,
que vai se transformando e tende para a autonomia, para o ponto em que o aluno
não precisa mais do professor.
Assim, entendemos que o educador comprometido com
uma prática inclusiva, que respeita e valoriza seus educandos e,
consequentemente, suas características humanas, faz da ação docente uma busca
constante pela promoção das acessibilidades que diluirão as possíveis barreiras
limitantes ou impeditivas do pleno desenvolvimento das pessoas com deficiência.
Na busca pela promoção dessas acessibilidades,
torna-se, pois, fundamental pensar a prática pedagógica a partir da perspectiva
do desenho universal, com base no qual o educador inclusivo atenta para a
construção e execução de propostas educacionais que considerem as demandas da
diversidade humana como justificativas suficientes para a utilização de
recursos e serviços alinhados com as necessidades de seu público.
Com o propósito de instrumentalizar o docente no
sentido de respeitar os educandos com deficiência, oferecendo-lhes situações de
aprendizagem que verdadeiramente reflitam a adoção de práticas e atitudes
inclusivas, acreditamos que o educador deve incorporar ao seu fazer pedagógico
o uso de tecnologias assistivas.
De acordo com Bersch e Tonolli, considera-se
tecnologia assistiva:
"todo o arsenal de Recursos e Serviços que
contribuem para proporcionar ou ampliar habilidades funcionais de pessoas com
deficiência e, consequentemente, promover Vida Independente e Inclusão".
É também definida como "uma ampla gama de
equipamentos, serviços, estratégias e práticas concebidas e aplicadas para
minorar os problemas encontrados pelos indivíduos com deficiências".
Nesse ponto, cabe ressaltar que a escolha e a
utilização de tecnologias assistivas por parte do educador inclusivo devem ser
compreendidas como potencializadoras da ação da pessoa com deficiência,
configurando-se muito mais como uma ajuda técnica que atuará como recurso ou
serviço adicional, em prol da equiparação da igualdade.
Em outras palavras, significa dizer que, ao se
promover o uso de tecnologias assistivas no contexto social ou escolar, a
partir do uso de tais tecnologias, a pessoa com deficiência poderá executar
tarefas, acessar informações, transitar pelos ambientes etc., sem necessitar
arcar com os possíveis prejuízos oriundos da presença de barreiras.
A audiodescrição como tecnologia
assistiva
Surge, então, no cenário da tecnologia assistiva, a
audiodescrição, que se constitui como um serviço especializado capaz de
promover a acessibilidade comunicacional de pessoas cegas e com baixa visão,
além de contribuir para o acesso à informação de pessoas disléxicas ou que
apresentem outros tipos de transtornos relacionados à leitura.
A audiodescrição transita, pois, pelo viés da
comunicação, assumindo o papel de transmissora de informações que,
inicialmente, estariam disponíveis apenas no plano visual, a exemplo de imagens
estáticas (tais como fotografias), cenas dinâmicas (veiculadas no cinema, TV ou
teatro), além de textos e legendas impressas.
Nas palavras de Mota, a audiodescrição consiste na
"...) arte de transformar aquilo que é visto no que é ouvido".
Para Lara e Graciela Pozzobon:
"O recurso consiste na descrição clara e
objetiva de todas as informações que compreendemos visualmente e que não estão
contidas nos diálogos, como, por exemplo, expressões faciais e corporais que
comuniquem algo, informações sobre o ambiente, figurinos, efeitos especiais,
mudanças de tempo e espaço, além da leitura de créditos, títulos e qualquer
informação escrita na tela".
Consoante a Portaria nº 310/2006, a audiodescrição
é definida como:
"uma locução, em língua portuguesa, sobreposta
ao som original do programa, destinada a descrever imagens, sons, textos e
demais informações que não poderiam ser percebidos ou compreendidos por pessoas
com deficiência visual".
Ainda consoante Mota, as raízes históricas da
audiodescrição remontam à década de 1970, nos Estados Unidos, quando o
norte-americano Gregory Frazier desenvolveu estudos que ajudaram a impulsionar
a experimentação da técnica no teatro, estendendo-se à Europa e chegando a
alcançar o continente asiático, já direcionada a seriados de TV e ao próprio
cinema. Há, no entanto, registros que conferem à dra. Margareth Phantiehl e ao
seu marido o crédito pela invenção do serviço de audiodescrição, no ano de
1981.
Já no Brasil, a utilização da técnica é recente,
podendo ser encontrada primeiramente no cinema, com a exibição do filme
"Irmãos de Fé", no circuito comercial, em 2005. Porém, desde 2003, o
festival internacional de filmes sobre deficiência "Assim Vivemos"
vem exibindo filmes audiodescritos.
Os usos pedagógicos da audiodescrição
Nosso interesse, no entanto, reside em situar a
audiodescrição tomando por base o seu potencial pedagógico, na condição de
técnica ou serviço de promoção da acessibilidade capaz de permitir ao educador
inclusivo, nas mais variadas situações didáticas desenvolvidas no cotidiano
escolar, a construção e narração de roteiros audiodescritos que possam ilustrar
e enriquecer o processo de ensino/aprendizagem, ao passo que beneficia o
educador no planejamento de aulas inclusivas, voltadas à diversidade dos
alunos, e favorece os próprios educandos, usuários do recurso.
Para Guedes et al, o uso da audiodescrição no
contexto pedagógico também permite às pessoas disléxicas uma melhor absorção de
informações e conhecimentos, uma vez que as dificuldades relacionadas à
leitura, escrita e soletração advindas da dislexia estariam sendo dribladas em
virtude da utilização do recurso sonoro, o que facilitaria o entendimento das
informações contidas nos textos, a partir de sua escuta.
Com o propósito de desvelar a potencialidade
pedagógica da audiodescrição, os autores apontam, ainda, algumas ações que
podem ser empreendidas pelos professores da educação básica e replicadas nos
demais níveis de escolarização formal, no sentido de se promover a
acessibilidade comunicacional que conduzirá os educandos com deficiência à
desejada inclusão escolar.
Com ações que envolvem não só o professor, mas
também toda a escola e a comunidade escolar, os educandos com e sem deficiência
serão formados com a perspectiva da inclusão social, ou seja; tendo respeitados
os seus direitos de acesso ao conhecimento formal, à cultura, aos espaços
físicos e também à própria liberdade de expressão e empoderamento,
mobilizadores da autonomia e independência.
Assim, mediante utilização da audiodescrição como
ferramenta de cunho pedagógico, os educadores inclusivos poderão:
- minimizar ou eliminar as barreiras presentes nos
meios de comunicação que se interponham ao acesso à educação, tais como aquelas
presentes no acesso a materiais bibliográficos;
- proporcionar que alunos com deficiência visual,
com dislexia e outros tenham acesso aos conteúdos escolares, no mesmo tempo em
que o restante da turma;
- permitir que todas as ilustrações, imagens,
figuras, mapas, desenhos e demais configurações bidimensionais, presentes nos
livros didáticos, fichas de exercícios, provas, comunicados aos pais, cartazes,
circulares internas etc. também sejam disponibilizados em audiodescrição;
- zelar pela autonomia, empoderamento e
independência dos alunos com deficiência visual e outros usuários do recurso;
- atentar para a descrição de objetos que fazem
parte do cotidiano escolar, como a disposição do mobiliário da sala de aula, da
planta baixa da escola, da distribuição do acervo na biblioteca, dos espaços de
recreação e outros ambientes e produtos de uso comum etc.;
- perceber a transversalidade do recurso, por
exemplo, ao estimular que, com uso de uma atividade coletiva de audiodescrição,
durante uma aula de matemática ou de ciências, os alunos possam desenvolver
descrições por escrito, de tal sorte que as informações ali contidas possam ser
aproveitadas nas aulas de língua portuguesa;
- considerar a importância de democratizar as
informações e conhecimentos construídos em sala de aula para toda a comunidade
escolar, oferecendo aquele recurso em exposições, mostras, feiras de ciências,
apresentações, reuniões de pais e mestres, encontros pedagógicos, aulas de
reforço escolar, excursões temáticas, jogos e olimpíadas esportivas, exibição
de filmes e nos demais encontros e atividades cuja educação seja o foco;
- reforçar o respeito pela diversidade humana,
praticando e divulgando ações de cunho acessível entre os alunos com e sem
deficiência;
- atrair parceiros que possam financiar projetos de
acessibilidade na escola e a partir dela;
- criar programas e projetos de voluntariado e
monitoria que envolvam o público interno da instituição e a comunidade escolar,
a fim de capacitar os interessados na temática da audiodescrição e levar
adiante outras iniciativas de acessibilidade;
- promover encontros de formação, reflexão e
sensibilização sobre a inclusão social das pessoas com deficiência para
professores, funcionários, gestores, alunos e comunidade, fortalecendo a máxima
de que a inclusão só poderá ser construída por intermédio da perpetuação de
práticas acessíveis, ou seja, a partir da eliminação de barreiras, tais como as
atitudinais e aquelas presentes nos meios de comunicação.
Cientes de que a tarefa de educar na perspectiva
inclusiva exige, antes de tudo, a crença irrestrita na capacidade humana de
aprender sempre, ainda que em ritmos e de maneiras diferentes, acreditamos que
todo educador, atuando em qualquer modalidade da educação básica, seja capaz de
incorporar à sua prática docente a utilização de tecnologias assistivas.
E, sendo a audiodescrição uma dessas tecnologias,
conclamamos a todos os educadores comprometidos com a proposta de educar
pessoas, independentemente de rótulos ou estigmas, a estudar a sério o
potencial dessa enriquecedora ferramenta pedagógica, na certeza de que os
lucros advindos desse investimento, para além do enriquecimento na própria
formação docente, também implicarão a resposta positiva dos educandos com
deficiência, incluídos e verdadeiramente atuantes.
Lívia Couto Guedes possui
licenciatura plena em pedagogia, com habilitação em administração escolar e
mestrado em educação pela Universidade Federal de Pernambuco - Ufpe (2004 e
2007, respectivamente). É estudiosa das questões relacionadas à inclusão social
de pessoas com deficiência, com ênfase no enfoque educacional e escolar. É
audiodescritora, atuando na promoção de acessibilidade comunicacional para a
pessoa cega e com baixa visão por meio da construção e narração de roteiros
acessíveis. Atualmente, é professora substituta da Ufpe, lotada no Colégio de
Aplicação, no qual leciona a disciplina de pesquisa no ensino fundamental e
integra o Serviço de Orientação e Experimentação Pedagógica.