terça-feira, 3 de dezembro de 2013
ORIENTAÇÕES AOS EDUCADORES
AUDIODESCRIÇÃO
Olá! Este artigo é muito interessante. Espero que leiam e que gostem. São orientações valiosas para o nosso trabalho com as crianças.
COLUNA
Inclusão escolar
e audiodescrição
ORIENTAÇÕES AOS EDUCADORES
Quando falamos em inclusão escolar, em escola inclusiva, a escola que recebe, acolhe e oferece oportunidades de aprendizagem para todos os alunos, alguns questionamentos ainda teimam em vir à tona, por exemplo, as atividades escolares. Como preparar atividades escolares que contemplem as necessidades de todos os alunos? Como despertar a curiosidade, ampliar a visão de mundo, propiciar o acesso às informações a todos os alunos? Muitos são os recursos que poderão ser utilizados em sala de aula para responder a essas questões, dentre eles, a audiodescrição: um recurso de acessibilidade que amplia o entendimento das pessoas com deficiência visual em eventos culturais (peças de teatro, programas de TV, exposições, mostras, musicais, óperas, desfiles, espetáculos de dança), turísticos (passeios, visitas), esportivos (jogos, lutas, competições), acadêmicos (palestras, seminários, congressos, aulas, feiras de ciências, experimentos científicos, histórias) e outros, por meio de informação sonora. A audiodescrição transforma o visual em verbal, abrindo possibilidades maiores de acesso à cultura e à informação, contribuindo para a inclusão social, cultural e escolar. Além das pessoas com deficiência visual, esse recurso amplia também o entendimento de pessoas com deficiência intelectual, idosos e com dislexia. Para isso, são usados os mesmos
equipamentos de tradução simultânea, fones de ouvido e receptores. A informação sonora é transmitida pelos audiodescritores de dentro de uma cabine, com um roteiro previamente preparado, estudo sobre o tema e terminologia, inserida preferencialmente entre as falas dos personagens. Na televisão, a audiodescrição já era para ter sido implantada desde junho de 2008, com duas horas de programação audiodescritas por dia que seriam transmitidas pela tecla SAP (canal secundário de
Por: Lívia Maria Villela de Mello Motta*
Foto: Arthur Calasans
áudio). Entretanto, o recurso foi suspenso pelo Ministério das Comunicações, colocado em consultas públicas e novas portarias foram baixadas. Uma verdadeira saga, que culminou com a publicação da portaria 188 de março de 2010, que prevê a transmissão de duas horas semanais de programas audiodescritos a partir de julho de 2011, já na TV digital, diminuindo drasticamente as possibilidades de acesso à cultura e informação.
Na escola, o próprio professor pode descrever o universo imagético presente em sala de aula como ilustrações nos livros didáticos e livros de história, gráficos, mapas, vídeos, fotografias, experimentos científicos, desenhos, peças de teatro, passeios, feiras de ciências, visitas culturais, dentre outros, sem precisar de equipamentos para tal, mas ciente da importância de verbalizar aquilo que é visual, o que certamente irá contribuir para a aprendizagem de todos os alunos. Todos se beneficiam com o recurso, tanto aqueles que escutam como aqueles que fazem a audiodescrição, pois além do senso de observação, há uma ampliação do repertório e fluência verbais. O uso da audiodescrição na escola permite a equiparação de oportunidades, o acesso ao mundo das imagens e a eliminação de barreiras comunicacionais.
*Lívia Maria Villela de Mello Motta é doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC de São Paulo, e atua tanto na área de formação de professores para a escola inclusiva, como na área de inclusão cultural das pessoas com deficiência vi-sual, com foco na formação de audiodescritores para teatro, cinema, TV e outros espetáculos, eventos sociais e pedagógicos. E-mail: lívia@terra.com.br
AUDIODESCRIÇÃO
Este vídeo é muito interessante para todas as crianças. Assistam, vocês vão gostar muito.
De Douglas Soares, animação, RJ, 2012, 3min56s.
O Girassolzinho (de Douglas Soares,
animação, RJ, 2012, 3min56s) está adaptado para crianças cegas disponível gratuitamente. O filme é mais um produto brasileiro do projeto
Filmes que Voam que tem o objetivo da acessibilidade aos meios audiovisuais de deficientes
visuais.
O curta-metragem traz a importância que
o sol tem em nossas vidas. O que seria da terra sem o calor que dele recebemos ou a falta do efeito dos seus raios luminosos? Imagine para o girassol o que aconteceria se a
colocássemos em uma redoma bem .fechada e escura? Ficou curioso? Não vai perder essa linda história
infantil.
UMA TECNOLOGIA
ASSISTIVA A SERVIÇO DA INCLUSÃO SOCIAL
A despeito de muito já se ter produzido em termos
de literatura acerca da inclusão social e das várias práticas que a
representam, seja na escola ou em outros lócus, não é exaustivo se defender que
a inclusão se efetiva na prática, no fazer cotidiano, na ocupação com as mudanças sociais necessárias,
em lugar da mera preocupação, e na crença de
que cada pessoa em situação de aprendizagem, seja ela com deficiência ou não,
vem requerer de nós educadores um olhar sempre consciente e esvaziado, pronto a
preencher-se diante de novos desafios.
E quando a atenção recai sobre a
formação escolar de pessoas com deficiência, o ato de se perceber educador e,
portanto, responsável pelo planejamento das possibilidades de inclusão escolar
consiste em tarefa permanente, passando a demandar do docente uma atitude que
envolve flexibilidade e conhecimento, na busca pela promoção das
acessibilidades que conduzirão o educando com deficiência às reais
oportunidades de inserção no contexto da escola regular e, a partir dele, na vida
social, em prol do melhor desenvolvimento de suas potencialidades.
Nesse sentido, entendemos como possibilidades reais
de inclusão escolar aquelas em que se privilegiam atitudes pedagógicas e
relações interpessoais pautadas na ética entre educador e educando. Nas quais
se estabelece uma convivência harmoniosa ditada pelo respeito a todas as
pessoas, pelo simples fato de serem pessoas humanas.
Corroborando com essa visão, Almeida (2004, p.82)
defende que uma prática docente pautada pelo respeito ao educando pressupõe:
§ aceitá-lo no ponto em que está, o que significa
conhecê-lo em sua etapa de formação e conhecer os meios em que se desenvolve;
§ não impor limites a seu desenvolvimento;
§ oferecer outros meios e grupos para que ele possa
desenvolver suas ações;
§ aceitar que a educação é uma relação evolutiva,
que vai se transformando e tende para a autonomia, para o ponto em que o aluno
não precisa mais do professor.
Assim, entendemos que o educador comprometido com
uma prática inclusiva, que respeita e valoriza seus educandos e,
consequentemente, suas características humanas, faz da ação docente uma busca
constante pela promoção das acessibilidades que diluirão as possíveis barreiras
limitantes ou impeditivas do pleno desenvolvimento das pessoas com deficiência.
Na busca pela promoção dessas acessibilidades,
torna-se, pois, fundamental pensar a prática pedagógica a partir da perspectiva
do desenho universal, com base no qual o educador inclusivo atenta para a
construção e execução de propostas educacionais que considerem as demandas da
diversidade humana como justificativas suficientes para a utilização de
recursos e serviços alinhados com as necessidades de seu público.
Com o propósito de instrumentalizar o docente no
sentido de respeitar os educandos com deficiência, oferecendo-lhes situações de
aprendizagem que verdadeiramente reflitam a adoção de práticas e atitudes
inclusivas, acreditamos que o educador deve incorporar ao seu fazer pedagógico
o uso de tecnologias assistivas.
De acordo com Bersch e Tonolli, considera-se
tecnologia assistiva:
"todo o arsenal de Recursos e Serviços que
contribuem para proporcionar ou ampliar habilidades funcionais de pessoas com
deficiência e, consequentemente, promover Vida Independente e Inclusão".
É também definida como "uma ampla gama de
equipamentos, serviços, estratégias e práticas concebidas e aplicadas para
minorar os problemas encontrados pelos indivíduos com deficiências".
Nesse ponto, cabe ressaltar que a escolha e a
utilização de tecnologias assistivas por parte do educador inclusivo devem ser
compreendidas como potencializadoras da ação da pessoa com deficiência,
configurando-se muito mais como uma ajuda técnica que atuará como recurso ou
serviço adicional, em prol da equiparação da igualdade.
Em outras palavras, significa dizer que, ao se
promover o uso de tecnologias assistivas no contexto social ou escolar, a
partir do uso de tais tecnologias, a pessoa com deficiência poderá executar
tarefas, acessar informações, transitar pelos ambientes etc., sem necessitar
arcar com os possíveis prejuízos oriundos da presença de barreiras.
A audiodescrição como tecnologia
assistiva
Surge, então, no cenário da tecnologia assistiva, a
audiodescrição, que se constitui como um serviço especializado capaz de
promover a acessibilidade comunicacional de pessoas cegas e com baixa visão,
além de contribuir para o acesso à informação de pessoas disléxicas ou que
apresentem outros tipos de transtornos relacionados à leitura.
A audiodescrição transita, pois, pelo viés da
comunicação, assumindo o papel de transmissora de informações que,
inicialmente, estariam disponíveis apenas no plano visual, a exemplo de imagens
estáticas (tais como fotografias), cenas dinâmicas (veiculadas no cinema, TV ou
teatro), além de textos e legendas impressas.
Nas palavras de Mota, a audiodescrição consiste na
"...) arte de transformar aquilo que é visto no que é ouvido".
Para Lara e Graciela Pozzobon:
"O recurso consiste na descrição clara e
objetiva de todas as informações que compreendemos visualmente e que não estão
contidas nos diálogos, como, por exemplo, expressões faciais e corporais que
comuniquem algo, informações sobre o ambiente, figurinos, efeitos especiais,
mudanças de tempo e espaço, além da leitura de créditos, títulos e qualquer
informação escrita na tela".
Consoante a Portaria nº 310/2006, a audiodescrição
é definida como:
"uma locução, em língua portuguesa, sobreposta
ao som original do programa, destinada a descrever imagens, sons, textos e
demais informações que não poderiam ser percebidos ou compreendidos por pessoas
com deficiência visual".
Ainda consoante Mota, as raízes históricas da
audiodescrição remontam à década de 1970, nos Estados Unidos, quando o
norte-americano Gregory Frazier desenvolveu estudos que ajudaram a impulsionar
a experimentação da técnica no teatro, estendendo-se à Europa e chegando a
alcançar o continente asiático, já direcionada a seriados de TV e ao próprio
cinema. Há, no entanto, registros que conferem à dra. Margareth Phantiehl e ao
seu marido o crédito pela invenção do serviço de audiodescrição, no ano de
1981.
Já no Brasil, a utilização da técnica é recente,
podendo ser encontrada primeiramente no cinema, com a exibição do filme
"Irmãos de Fé", no circuito comercial, em 2005. Porém, desde 2003, o
festival internacional de filmes sobre deficiência "Assim Vivemos"
vem exibindo filmes audiodescritos.
Os usos pedagógicos da audiodescrição
Nosso interesse, no entanto, reside em situar a
audiodescrição tomando por base o seu potencial pedagógico, na condição de
técnica ou serviço de promoção da acessibilidade capaz de permitir ao educador
inclusivo, nas mais variadas situações didáticas desenvolvidas no cotidiano
escolar, a construção e narração de roteiros audiodescritos que possam ilustrar
e enriquecer o processo de ensino/aprendizagem, ao passo que beneficia o
educador no planejamento de aulas inclusivas, voltadas à diversidade dos
alunos, e favorece os próprios educandos, usuários do recurso.
Para Guedes et al, o uso da audiodescrição no
contexto pedagógico também permite às pessoas disléxicas uma melhor absorção de
informações e conhecimentos, uma vez que as dificuldades relacionadas à
leitura, escrita e soletração advindas da dislexia estariam sendo dribladas em
virtude da utilização do recurso sonoro, o que facilitaria o entendimento das
informações contidas nos textos, a partir de sua escuta.
Com o propósito de desvelar a potencialidade
pedagógica da audiodescrição, os autores apontam, ainda, algumas ações que
podem ser empreendidas pelos professores da educação básica e replicadas nos
demais níveis de escolarização formal, no sentido de se promover a
acessibilidade comunicacional que conduzirá os educandos com deficiência à
desejada inclusão escolar.
Com ações que envolvem não só o professor, mas
também toda a escola e a comunidade escolar, os educandos com e sem deficiência
serão formados com a perspectiva da inclusão social, ou seja; tendo respeitados
os seus direitos de acesso ao conhecimento formal, à cultura, aos espaços
físicos e também à própria liberdade de expressão e empoderamento,
mobilizadores da autonomia e independência.
Assim, mediante utilização da audiodescrição como
ferramenta de cunho pedagógico, os educadores inclusivos poderão:
- minimizar ou eliminar as barreiras presentes nos
meios de comunicação que se interponham ao acesso à educação, tais como aquelas
presentes no acesso a materiais bibliográficos;
- proporcionar que alunos com deficiência visual,
com dislexia e outros tenham acesso aos conteúdos escolares, no mesmo tempo em
que o restante da turma;
- permitir que todas as ilustrações, imagens,
figuras, mapas, desenhos e demais configurações bidimensionais, presentes nos
livros didáticos, fichas de exercícios, provas, comunicados aos pais, cartazes,
circulares internas etc. também sejam disponibilizados em audiodescrição;
- zelar pela autonomia, empoderamento e
independência dos alunos com deficiência visual e outros usuários do recurso;
- atentar para a descrição de objetos que fazem
parte do cotidiano escolar, como a disposição do mobiliário da sala de aula, da
planta baixa da escola, da distribuição do acervo na biblioteca, dos espaços de
recreação e outros ambientes e produtos de uso comum etc.;
- perceber a transversalidade do recurso, por
exemplo, ao estimular que, com uso de uma atividade coletiva de audiodescrição,
durante uma aula de matemática ou de ciências, os alunos possam desenvolver
descrições por escrito, de tal sorte que as informações ali contidas possam ser
aproveitadas nas aulas de língua portuguesa;
- considerar a importância de democratizar as
informações e conhecimentos construídos em sala de aula para toda a comunidade
escolar, oferecendo aquele recurso em exposições, mostras, feiras de ciências,
apresentações, reuniões de pais e mestres, encontros pedagógicos, aulas de
reforço escolar, excursões temáticas, jogos e olimpíadas esportivas, exibição
de filmes e nos demais encontros e atividades cuja educação seja o foco;
- reforçar o respeito pela diversidade humana,
praticando e divulgando ações de cunho acessível entre os alunos com e sem
deficiência;
- atrair parceiros que possam financiar projetos de
acessibilidade na escola e a partir dela;
- criar programas e projetos de voluntariado e
monitoria que envolvam o público interno da instituição e a comunidade escolar,
a fim de capacitar os interessados na temática da audiodescrição e levar
adiante outras iniciativas de acessibilidade;
- promover encontros de formação, reflexão e
sensibilização sobre a inclusão social das pessoas com deficiência para
professores, funcionários, gestores, alunos e comunidade, fortalecendo a máxima
de que a inclusão só poderá ser construída por intermédio da perpetuação de
práticas acessíveis, ou seja, a partir da eliminação de barreiras, tais como as
atitudinais e aquelas presentes nos meios de comunicação.
Cientes de que a tarefa de educar na perspectiva
inclusiva exige, antes de tudo, a crença irrestrita na capacidade humana de
aprender sempre, ainda que em ritmos e de maneiras diferentes, acreditamos que
todo educador, atuando em qualquer modalidade da educação básica, seja capaz de
incorporar à sua prática docente a utilização de tecnologias assistivas.
E, sendo a audiodescrição uma dessas tecnologias,
conclamamos a todos os educadores comprometidos com a proposta de educar
pessoas, independentemente de rótulos ou estigmas, a estudar a sério o
potencial dessa enriquecedora ferramenta pedagógica, na certeza de que os
lucros advindos desse investimento, para além do enriquecimento na própria
formação docente, também implicarão a resposta positiva dos educandos com
deficiência, incluídos e verdadeiramente atuantes.
Lívia Couto Guedes possui
licenciatura plena em pedagogia, com habilitação em administração escolar e
mestrado em educação pela Universidade Federal de Pernambuco - Ufpe (2004 e
2007, respectivamente). É estudiosa das questões relacionadas à inclusão social
de pessoas com deficiência, com ênfase no enfoque educacional e escolar. É
audiodescritora, atuando na promoção de acessibilidade comunicacional para a
pessoa cega e com baixa visão por meio da construção e narração de roteiros
acessíveis. Atualmente, é professora substituta da Ufpe, lotada no Colégio de
Aplicação, no qual leciona a disciplina de pesquisa no ensino fundamental e
integra o Serviço de Orientação e Experimentação Pedagógica.
Lívia Couto Guedes
Fonte: Revista Nacional de Tecnologia Assistiva
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