A educação para pessoas com
surdez
A
educação escolar das pessoas com surdez já existe aproximadamente a dois
séculos, quando surgiu um embate político e epistemológico entre os
gestualistas e os oralistas. Este conflito tem ocupado um lugar de destaque nas
políticas públicas, nos debates e nas pesquisas científicas, assim como nas
ações pedagógicas empreendidas em prol da educação das pessoas com surdez, seja
na escola comum ou na escola especial.
A discussão sobre surdez, educação e
língua de sinais vem sendo ampliada nos últimos anos por profissionais
envolvidos com a educação de surdos, como também pela própria comunidade surda.
Segundo Moura (2000), a educação e inserção social dos surdos constituem um
sério problema, e muitos caminhos têm sido seguidos na busca de uma solução.
A
oficialização da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) em abril de 2002 (Lei n.
10.436, de 24 de abril de 2002) começa a abrir novos caminhos, sem, no entanto,
deixar de gerar polêmicas por profissionais que trabalham com surdos e por
surdos oralizados, que não se sentem parte de uma comunidade surda e não vêem
mérito nessa vitória para a comunidade surda.
A
língua de sinais, língua natural dos surdos, pois essa a criança surda adquire
de forma espontânea sem que seja preciso um treinamento específico, ainda é
considerada por muitos profissionais apenas como gestos simbólicos. De uma
maneira geral, em nossa sociedade não existe lugar para as diferenças, sendo os
surdos usuários da língua de sinais desconsiderados no processo educacional.
Muitos
profissionais que trabalham com surdos têm uma visão sobre a língua de sinais
como uma forma de comunicação, não atribuindo a ela o status de língua e
considerando-a apenas uma alternativa para os surdos que não conseguiram
desenvolver a língua oral. Segundo Skliar (1997), o oralismo é considerado
pelos estudiosos uma imposição social de uma maioria lingüística sobre uma
minoria lingüística.
Como
conseqüência do predomínio dessa visão oralista sobre a língua de sinais e
sobre surdez, o surdo acaba não participando do processo de integração social.
Embora a premissa mais forte que sustenta o oralismo seja a integração do surdo
na comunidade ouvinte, ela não consegue ser alcançada na prática, pelo menos
pela grande maioria de surdos. Isso acaba refletindo, principalmente, no
desenvolvimento de sua linguagem, sendo então o surdo silenciado pelo ouvinte,
por muitas vezes não ser compreendido.
É preciso aceitar as
diferenças existentes entre os surdos com relação à modalidade de comunicação
utilizada, seja oral ou língua de sinais.
Língua
de sinais e linguagem
Antes
de iniciar esta discussão, torna-se essencial esclarecer os termos
"língua" e "linguagem". Saussure (1987) refere que a língua
não se confunde com a linguagem, pois ela é somente uma parte determinada,
essencial dela, indubitavelmente, sendo ao mesmo tempo, um produto social da
faculdade de linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo
corpo social para possibilitar o exercício dessa faculdade nos indivíduos.
A
linguagem por sua vez é tida como tudo que envolve significação, que tem valor
semiótico, não se restringindo apenas a uma forma de comunicação, e é nela que
o pensamento do indivíduo é constituído (Goldfeld, 1997). A autora refere,
ainda, que a linguagem está sempre presente no sujeito, até quando este não
está se comunicando com outras pessoas; assim ela constitui o sujeito, a forma
como este recorta e percebe o mundo e a si próprio.
Para
Vygotsky (1989), a trajetória principal do desenvolvimento psicológico da
criança é uma trajetória de progressiva individualização, ou seja, é um
processo que se origina nas relações sociais, interpessoais e se transforma em
individual, intrapessoal.
No
momento em que a criança adquire sua língua natural ela se torna capaz de
realizar o aprendizado de uma segunda língua, tornando-se um ser bilíngüe. No
caso dos surdos, como nem sempre isso é uma realidade, podemos encontrar surdos
adultos que, pela falta de acesso à língua de sinais na infância, chegam à vida
adulta sem ter adquirido nenhuma língua, por terem sido apenas expostos a uma
língua oral e não terem desempenho satisfatório com esta.
A
língua de sinais representa um papel expressivo na vida da pessoa surda,
conduzindo-a, por intermédio de uma língua estruturada, ao desenvolvimento
pleno. Harrison (2000) refere que essa língua fornece para a criança surda a
oportunidade de ter acesso à aquisição de linguagem e de conhecimento de mundo
e de si mesma.
Essa
língua, como qualquer outra, deve ser inserida na vida da criança nos três
primeiros anos de idade, para que a criança a adquira naturalmente. No entanto,
de acordo com a realidade de nosso país, a detecção da surdez nem sempre ocorre
até o primeiro ano de vida, assim como o acesso à língua de sinais é tardio.
Dificilmente a importância da Libras é apontada pelos profissionais que dão o diagnóstico
da surdez aos pais. É fundamental que os profissionais transmitam para a
família da criança surda as diferentes propostas de trabalho fonoaudiológico e
informem sobre a importância da LIBRAS para o seu processo educacional, social,
cultural, como também suas concepções e conseqüências para o desenvolvimento
geral do surdo. É essencial esclarecer e, como sugere Harrison (2000),
propiciar linguagem no tempo esperado, pois assim esta poderá trazer benefícios
para a criança e para a dinâmica familiar.
Pensando
no indivíduo surdo, acreditamos que seja importante para este como sujeito:
crescer, desenvolver-se, amadurecer, construir e constituir-se inserido numa
língua própria e natural. A criança, ao ter acesso a uma língua, passa a
desenvolver linguagem, interagindo com o outro, repensando suas ações,
elaborando seu pensamento, vivenciando novas experiências e se desenvolvendo.
Uma criança que não escuta possui as mesmas condições de aprendizagem que uma
criança ouvinte, porém o acesso à linguagem se dará por meio do canal
gesto-visual.
Ao
permitir que a criança surda tenha a oportunidade de se desenvolver de forma
análoga à das crianças ouvintes, estar-se-á respeitando sua língua, sua
diferença. Não se pode mais negar aos surdos o direito de serem parte
integrante e participativa de nossa sociedade. Além disso, para que o surdo
possa desenvolver-se, não basta apenas permitir que use sua língua, é preciso
também promover a integração com sua cultura, para que se identifique e possa
utilizar efetivamente a língua de sinais. A comunidade surda terá muita
importância para o desenvolvimento da identidade, pois nessa comunidade a
língua de sinais ocorre de forma espontânea e efetiva. Todo sujeito precisa
interagir em seu meio, apropriar-se de sua cultura e de sua história, e formar
sua identidade por intermédio do convívio com o outro.
Fonte:
DMÁZIO, M. F. M. ; ALVES, C. B. MEC: A Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva/2007
HARRISON, K.M.P. O momento
do diagnóstico de surdez e as possibilidades de encaminhamento. In: LACERDA,
C.B.F.; NAKAMURA, H.; LIMA, M.C. (Org.). Fonoaudiologia: surdez e
abordagem bilíngüe. São Paulo: Plexus, 2000. p. 114-122.
BRASIL. Lei n. 10.436, de 24 de abril de
2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS e dá outras
providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil,
Brasília, DF.


Olá cara colega!
ResponderExcluirAs discussões a cerca da educação da pessoa com surdez a cada dia realmente vem ficando dia mais acirrada. são muitas vertentes e a comunidade surda também vem se envolvendo, pois segundo Moura em sua fala diz que a educação e inserção social dos surdos constitui um sério problema e muitos caminhos tem sido seguidos na tentativa de uma solução. Valeu sua colaboração. Muito bom texto !